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Mulheres estão ainda mais sobrecarregadas na pandemia

A pandemia do novo coronavírus tem dificultado o cotidiano de todos. Entretanto, para as mulheres, os impactos estão sendo ainda maiores. De acordo com uma pesquisa realizada pelo site mulheresnapandemia.sof.org.br, 50% das mulheres passaram a cuidar de alguém na pandemia, e 41% das mulheres afirmaram que o trabalho aumentou. Esse cenário pode ser entendido como um reflexo do machismo presente na sociedade há muito tempo.

Não faltam dados para confirmar o impacto desigual da pandemia entre os gêneros. Sete milhões de mulheres tiveram de deixar seus empregos desde o início da pandemia, dois milhões a mais que o número de homens que saíram do seu trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) realizada pelo IBGE.

A mulher é vista como uma ‘’faz tudo’’. Ela trabalha fora, cozinha, cuida da casa, dos filhos e até mesmo do marido. Devido a um ano pandêmico, as responsabilidades aumentaram e isso acabou tendo um peso maior para as mulheres, especialmente para as mais pobres.

Segundo a psicóloga Mariana Amaral, o trabalho excessivo pode trazer danos à saúde mental: “Isso pode gerar uma crise de ansiedade, uma depressão, ou qualquer outra patologia da saúde mental, e vai acabar afastando a funcionária do seu emprego’’.

Além das atribuições que aumentaram, a violência doméstica também cresceu. Os dados do mulheresnapandemia.sof.org.br também abordam essa questão e indicam que 8,4% das mulheres relatam terem sofrido violência durante o isolamento. Isso se deve ao fato de que, com as medidas de contenção da pandemia, o tempo dentro de casa com o agressor acaba sendo maior.

As diretoras do SINTPq, Priscila Leal e Filó Santos, relataram o cotidiano que tem sido enfrentado por elas e por muitas mulheres. Confira a seguir.

  

Priscila Leal
Diretora do SINTPq e trabalhadora do IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas

Estou tão cansada que não consigo pensar em nada incentivador para a comemorar a histórica e mais que justa luta das mulheres. Este ano pandêmico que passou, e agora a continuação da situação desastrosa que vivemos tem me esmagado de tarefas sem fim, domésticas e de trabalho. Acordo de manhã cedo e começo alguns afazeres domésticos mais urgentes, antes que todos acordem em casa, depois me sento no computador e tento dar conta de relatório atrasados e demandas urgentes do trabalho. Dá a hora do almoço e corro para preparar a comida, me deparo com o gerenciamento do estoque doméstico e faço a lista do mercado, percebo a sujeira da casa se acumulando, ao mesmo tempo que toca o alarme no celular me lembrando de dar o remédio do gato doente.

Peço ajuda para o marido, que às vezes solícito espera pelas “ordens” da gerência da casa. Volto para o computador, sobe a mensagem avisando da aula virtual da minha filha, corro para preparar o equipamento, avisar, insistir e motivar a criança para a aula. De novo no computador, a internet trava. Ligo para a operadora, ligo para o banco, faço as compras virtualmente, volto para o relatório, a vista turva, são 20h. A gata e a criança com fome. Cozinha, computador, vassoura, telefone, dor muscular, tudo misturado, tento gerenciar. Os limites se perderam, perco a paciência, todo mundo se chateia. São 22h e lembro que não tomei banho. Checo as mensagens mais uma vez antes de mais um round de limpeza, e leio alguns relatos semelhantes ao meu, de mulheres esgotadas em desalento. Não temos o que comemorar, estamos muito mais cansadas neste cativeiro pandêmico, ou sob o risco do ônibus lotado contaminado. Só nos resta perder a compostura esperada do papel feminino e lutar, segurar a mão das nossas companheiras e seguir em frente.

Filó Santos
Diretora do SINTPq e trabalhadora do CPQD

Imagino o quanto deve ser desgastante a muitas mulheres dar conta do trabalho doméstico, profissional e os cuidados com as crianças, que além dos deveres escolares, agora inclui sentar-se ao banco da escola com elas. O momento atual é muito difícil e para muitas mulheres se agrava com a pandemia, quando elas se encontram em companhia da violência doméstica. Às vezes, tenho a sensação que precisamos dar mais de um passo de cada vez para avançarmos na direção de uma mudança estrutural profunda. Sabemos que o machismo, assim como o racismo, estão nas entranhas da estrutura do Estado. E num governo que representa o antigoverno, como é o de Bolsonaro que com a ministra Damares, ataca os poucos avanços no combate à violência contra as mulheres e outras pautas muito cara às mulheres, precisamos intensificar nossa luta pra avançarmos além dos retrocessos.

por: Julia Reis
Comunicação SINTPq

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