Notícias | SINTPq destaca lançamento da SoberanIA como avanço estratégico para a soberania tecnológica do Brasil

SINTPq destaca lançamento da SoberanIA como avanço estratégico para a soberania tecnológica do Brasil

Projeto nacional de inteligência artificial recebe aporte inicial de R$ 25 milhões e reforça o papel da ciência pública, da infraestrutura própria e do trabalho qualificado no desenvolvimento do país.

07/01/2026

soberania

Foto: Governo do Estado do Piauí

 

O Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (SINTPq) avalia como estratégica para o país a criação da SoberanIA, primeiro projeto de inteligência artificial totalmente nacional, lançado no fim do ano passado, pelo governo federal em parceria com o governo do Piauí. A iniciativa, que conta com dados nacionais e infraestrutura própria, busca garantir soberania digital, segurança da informação e redução da dependência de soluções controladas por grandes corporações estrangeiras, com investimento inicial anunciado de R$ 25 milhões pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O lançamento da SoberanIA ocorre em um contexto global de crescente preocupação com a segurança de dados e o controle sobre tecnologias estratégicas. Governos de diferentes países têm ampliado investimentos e estruturas institucionais voltadas à inteligência artificial, reconhecendo o impacto direto dessas ferramentas sobre políticas públicas, serviços essenciais e a soberania nacional. Durante o anúncio, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), destacou que o desenvolvimento de soluções próprias de inteligência artificial responde a um dilema enfrentado por diversos países, que possuem grandes volumes de dados públicos, mas acabam dependendo de empresas internacionais para processá-los. Segundo ele, a escolha é entre transferir dados estratégicos para fora do país ou abrir mão do potencial da tecnologia, cenário que reforça a importância de iniciativas soberanas.

Para o SINTPq, o projeto representa um marco relevante no enfrentamento da dependência tecnológica histórica do Brasil. De acordo com o diretor do sindicato, Leonardo da Cruz, a SoberanIA sinaliza que a soberania digital começa a deixar o campo do discurso e passa a integrar a agenda estratégica do Estado brasileiro. Ele ressalta que a centralização de dados nacionais em infraestrutura própria fortalece o controle público sobre informações sensíveis e desafia a lógica de concentração tecnológica no eixo Sul-Sudeste, ao colocar o Piauí como protagonista desse processo.

“O alerta principal é o desafio que será a ampliação da solução em escala nacional, sem comprometer eficiência, segurança e transparência, ao mesmo tempo em que enfrenta as pressões do mercado e das grandes empresas de tecnologia”, completou Leonardo.

A iniciativa também foi analisada por pesquisadores da área de ciência e tecnologia, que avaliam que, embora o desenvolvimento de tecnologias próprias de inteligência artificial contrarie a lógica de mercado baseada na contratação de soluções prontas, ele é fundamental para a independência e a soberania de qualquer nação. Segundo essa avaliação técnica, países como China e Estados Unidos investem volumes expressivos em inteligência artificial, reconhecendo que modelos avançados dependem de três fatores centrais, grandes volumes de dados, mão de obra altamente qualificada e infraestrutura energética robusta.   

Esses modelos, especialmente os grandes modelos de linguagem, exigem processos intensivos de treinamento, consumo elevado de energia e, muitas vezes, supervisão humana. Para atender demandas governamentais e políticas públicas, é fundamental que utilizem dados públicos e estratégicos, o que torna a soberania sobre essas informações um ponto sensível.

Nesse cenário, países periféricos enfrentam o risco de dependência estrutural de corporações estrangeiras, reforçando a importância de projetos como a SoberanIA.

O histórico brasileiro demonstra que a redução de investimentos em ciência e tecnologia ao longo das últimas décadas ampliou a distância em relação a países que hoje lideram áreas como semicondutores, tecnologia espacial e inteligência artificial. Ainda assim, o Brasil mantém capacidades relevantes, com centros de pesquisa de excelência, trabalhadores qualificados e potencial para desenvolver soluções tecnológicas alinhadas à sustentabilidade, um diferencial estratégico para o futuro.

Durante o lançamento, a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos (PCdoB), anunciou que a SoberanIA e o programa IA Para Bem e Todos passarão a integrar os planos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Segundo a ministra, já foram investidos R$ 6,4 bilhões em ações governamentais na área, com quase metade das iniciativas previstas já entregues.

Ela destacou que o foco está na construção de infraestrutura nacional capaz de gerar soluções aplicáveis à saúde, educação e gestão pública, com tecnologia desenvolvida no país.

O ministro das Comunicações, Frederico Siqueira, reforçou a necessidade de uma infraestrutura robusta de conectividade e data centers para sustentar projetos dessa natureza. Segundo ele, a Política Nacional de Datacenters deve avançar ao longo de 2026, ampliando a experiência do Piauí para outros estados e garantindo segurança jurídica e técnica para o setor.

A SoberanIA foi treinada com mais de 130 bilhões de palavras em português, a partir de bases de dados públicas e validadas, e já é utilizada em serviços educacionais e de segurança no estado do Piauí. A solução opera em um data center de alta disponibilidade instalado no próprio estado, com todos os dados sob guarda do poder público e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados.

Além da segurança digital, o projeto prevê proteção física reforçada contra espionagem e vazamentos, com estrutura operada em parceria com a Telebrás. A iniciativa também prioriza o uso de energia renovável, articulando desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e valorização do trabalho científico e técnico.

Para o SINTPq, o fortalecimento de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação, com controle público e valorização dos trabalhadores do setor, é condição essencial para que o Brasil avance com soberania, reduza desigualdades regionais e construa um projeto de desenvolvimento comprometido com o interesse coletivo.