“Jovens negros estão sub-representados na ciência porque o racismo mina nossa subjetividade desde a infância”

Dirigente do SINTPq e profissional da maior estrutura científica nacional, Pedro Martins compartilha suas vivências e reflexões sobre a desigualdade racial

18/11/2022

Pedro Martins conduz assembleia de formação de pauta com os trabalhadores do CNPEM (FOTO: Fernando Almeida/SINTPq)

O 20 de Novembro e todo o Mês da Consciência Negra representam um importante momento de reflexão a respeito das mazelas oriundas do racismo. Com isso em mente, o SINTPq realizou uma entrevista com seu dirigente Pedro Martins, que trabalha há cinco anos no CNPEM (Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais). Dirigente sindical desde 2021, Pedro é engenheiro físico e desenvolve trabalhos relacionados com Simulação Computacional Multifísica, Modelamento Matemático de Problemas e Análise de Sinais e Planejamento de Experimentos de Vibração.

Ao longo da entrevista, Pedro Martins compartilhou algumas de suas vivências enquanto trabalhador negro na maior estrutura científica do País. Atuante na luta antirracista, o sindicalista chama a atenção para questões fundamentais na construção da igualdade racial, como o racismo estrutural, a representatividade e a importância das ações afirmativas.

Como foi sua trajetória até chegar ao CNPEM? Quais funções exerce hoje no Centro e como tem sido sua relação e atuação junto ao SINTPq?

Eu sou natural de Osasco, Zona Oeste da Região metropolitana de São Paulo. Estudei em escola pública a vida toda. No Ensino Médio, em busca de uma escola que tivesse condições mínimas de fornecer uma educação de melhor qualidade, recorri à escola técnica e cursei Edificações, integrado ao Ensino Médio regular. Foi neste período em que tive o primeiro contato com a física – e me encantei. Decidi que queria cursar Física na faculdade, mas mantinha sempre em mente a necessidade de ter uma formação que me garantisse maior estabilidade e oportunidades de emprego quando me formasse. Nesse contexto descobri a engenharia física. Li as grades curriculares, prestei o vestibular, fui aprovado na USP e na UFSCar e decidi pela segunda (sendo a criadora do curso no Brasil).

O período de graduação foi muito difícil, tendo que conciliar os estudos com uma iniciação científica desde o primeiro ano de faculdade (sendo essa minha maior fonte de renda) além de “bicos” de garçom aos finais de semana para completar a renda. Fui militante do Levante Popular da Juventude, o que foi central para a minha formação política, intelectual e como ser humano. Também atuei no Diretório Acadêmico da Física e Engenharia Física, promovendo melhorias e apoio reais para os alunos desses cursos (meus colegas de departamento).

Finalmente, em 2017, entrei no CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) como estagiário no grupo de Projetos Mecânicos para desenvolver um dispositivo de ótica de raio-X, que seria utilizado nas estações experimentais do acelerador de partículas, Sirius. No ano seguinte fui efetivado e, na minha trajetória até aqui, passei por alguns outros grupos a partir de acordos de cooperação. Trabalhei no Projetos para Linhas de Luz, Metrologia e Ímãs. Atualmente, trabalho na área de Projetos de Desenvolvimento, dentro do Grupo de Projetos Mecânicos, envolvido principalmente com Simulação Computacional Multifísica, Modelamento Matemático de Problemas e Análise de Sinais e Planejamento de Experimentos de Vibração.

Passei a compor a diretoria SINTPq, na área de Comunicação, no ano de 2021, a partir da minha participação no processo de negociação de Acordo Coletivo de 2019 e 2020. Me vi representado pelas pautas, organização e direcionamentos de Luta que o SINTPq tem conduzido e me sinto muito feliz de poder fazer parte dessa história.

Barreiras sociais decorrentes do racismo dificultaram sua trajetória até aqui? De que forma você acredita que o racismo estrutural prejudica a inserção de jovens negros e negras na ciência?

Dizemos que o racismo é estrutural na medida em que ele está infiltrado em todos os espaços de poder e relações dentro da sociedade. Em especial, na sociedade brasileira ele se configura como um elemento central da nossa formação social e do desenvolvimento do nosso capitalismo tardio, como defendia Clóvis Moura. Sendo assim, é impossível que um negro não tenha sofrido com o racismo em sua história. Ainda que não seja explícito, não seja apresentado na forma de ofensas, insinuações, restrições evidentes de acesso a lugares, o racismo opera por dentro das instituições, isso porque elas não são entidades que estão no mundo das ideias, mas sim são entidades materiais, formadas por indivíduos que, por sua vez, são socializados em uma sociedade racista.

Então na medida em que morrem quase três vezes mais negros por causas violentas do que brancos, que a evasão escolar de jovens negros é maior (mesmo quando separa-se por classes sociais), quando a presença de pessoas negras em espaços de poder e representação é mínima (na escola e universidades, como professores, na televisão, como jornalistas, apresentadores e comentaristas, no congresso, no sistema de justiça), ao mesmo tempo em que a população carcerária negra é desproporcionalmente maior, quando a remuneração é menor em todos os níveis de formação educacional, então vemos um sistema inteiro que atua por diversas vias e estratégias, diretas e indiretas, pra privar o acesso de negros a recursos e espaços de poder, entre eles a academia e consequentemente o mercado de trabalho, em especial na área de ciência e tecnologia.

Jovens negros estão sub-representados na ciência, pois o racismo mina a nossa subjetividade desde a primeira infância; o preconceito e a representação midiática nos associa a imaginários muito longínquos da intelectualidade restringindo nossas perspectivas a empregos de baixo prestígio social e remuneração; a acumulação de desvantagens históricas faz a população negra ser maioria entre a população pobre, implicando em piores condições de alimentação, acesso à infraestrutura, acesso à educação (formal e cultural); o preconceito existente nos contratadores das empresas, nas chefias que avaliam o trabalho executado, nos colegas de trabalho que julgam e cooperam com pessoas, negras. Todos estes elementos se somam e interagem, das formas mais diversas, para criar o cenário que temos hoje.

Pedro Martins participou ativamente da campanha salarial, presente nas negociações com o Centro e dialogando constantemente com os profissionais (FOTO: Fernando Almeida/SINTPq)

Frequentemente, exemplos de pessoas negras que conquistaram lugar de destaque na ciência e na academia são utilizados para promover a lógica do esforço individual. Com isso, a discussão de políticas públicas contra as desigualdades e o racismo estrutural fica em segundo plano. Você também observa esse cenário? Caso sim, de que forma você avalia que podemos combater essa lógica individualista e meritocrática?

A lógica neoliberal de meritocracia é uma Ideologia, em sua essência, conforme a descrição acadêmica. Isto porque ela é um instrumento de ocultação e falseamento da realidade, por parte dos grupos que estão no poder, para naturalizar, justificar e amenizar conflitos sociais, tornando-os aceitáveis. Isto quer dizer que a valorização da vitória em seu caráter individual, contando casos de pessoas que “venceram apesar de tudo”, “superaram obstáculos”, etc., propaga uma lógica de que “todos podem conseguir” e que “tudo depende do esforço”, o que é uma mentira, uma vez que não há espaço para todos no topo e todo o nosso Sistema Político e Econômico opera para garantir a manutenção de alguns grupos nos espaços de poder. “O de cima sobe e o de baixo desce” é real. E quando alguém de baixo sobe, deve ser valorizado, mas não entendido como um modelo possível para todos. Avanços sociais reais só ocorrem coletivamente e isso somente é possível através de mudanças Estruturais, ou seja, quando o negro estiver presente e tiver força nos espaços de poder (congresso, judiciário, universidades, mídia e espaços de cultura, etc.), por isso as cotas raciais são tão importantes, porque evidenciam a desigualdade material trazendo proporção ao desproporcional.

Como trabalhador negro atuante na maior estrutura científica do País, você costuma observar situações de racismo (explícito ou velado) no seu dia a dia? Caso sim, poderia comentar algumas situações? De que forma CNPEM e SINTPq vêm atuando para combater o racismo no setor?

É sintomático o fato de não haver muitas conversas, mesmo entre trabalhadores, fazendo referência à discriminação racial. Acredito que em parte por desconfiança de como um comentário como esse pode ser recebido pelos colegas, por medo de represálias, por uma interiorização da meritocracia que ensina a “seguir em frente apesar de tudo e deixar pra lá”, enfim, as causas são múltiplas. Mas, eventualmente, conforme avançamos na confiança nas relações, vamos descobrindo fatos muitas vezes chocantes. As histórias são múltiplas, em geral relacionadas à desconfiança de capacidades, o que implica em não reconhecimento e valorização do trabalho, preconceitos relacionados aos cargos ocupados, incômodos com aparência, racismo recreativo (na forma de piadas e chacota), etc. De forma geral os trabalhadores não se sentem seguros em denunciar e é neste sentido que temos tentado atuar. Primeiro fortalecendo o Canal de Denúncias, tentando trazer representatividade no núcleo que recebe as denúncias. Além disso, também estamos acompanhando o trabalho do CNPEM em desenvolver uma política de ações afirmativas, que será iniciada com uma avaliação do perfil étnico-racial dos trabalhadores, a fim de gerar dados que possam referendar a observação empírica que fazemos no dia a dia de trabalho: que são poucos os negros que trabalham lá dentro e que não estão em cargos de liderança ou de tomada de decisão.

Em agosto de 2022, profissionais do CNPEM encerraram a campanha salarial com avanços nas cláusulas econômicas e sociais (FOTO: Fernando Almeida/SINTPq)

É comum que o acesso à educação seja tratado como a fórmula mágica para incluir pessoas negras e de outras minorias no ambiente científico. Entretanto, as cotas raciais demonstram ser insuficientes quando não há políticas de permanência nas universidades, bolsas de pesquisa suficientes e outros incentivos. Como você avalia este cenário e o que projeta para o futuro próximo em relação à igualdade racial na ciência?

O acesso à educação, em especial a educação superior, é uma pauta histórica do movimento negro, pois parte de uma constatação de que na realidade brasileira o acesso ao ensino superior ainda é uma forma de ascensão social. No entanto, essa ascensão não é igualitária para todos os grupos raciais. Como mostra um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo em parceria com pesquisadores da Universidade de Zurique, a elite brasileira e o grupo das pessoas brancas, capturou a maior parte dos ganhos com acesso à educação nos últimos 40 anos. Isto quer dizer que mesmo quando conseguem estudar mais, os trabalhadores negros ganham menos do que os trabalhadores brancos (dado corroborado por outras pesquisas).

Como argumentei anteriormente, o enfrentamento ao Racismo estrutural precisa ser feito em todos os setores da sociedade brasileira, a educação é um deles. Eu sou fruto da política de cotas e permanência estudantil, do projeto de expansão das universidades (REUNI), de políticas de fomento à pesquisa (PICME, FAPESP), de políticas de apoio a leitura. Mas, também sou testemunha de que são necessárias políticas de cotas raciais acompanhadas de sistemas de verificação da autodeclaração, além de programas específicos para direcionamento de jovens pretos para as áreas de ciência, tão estigmatizadas e distanciadas de nós pela sub-representação. As empresas, o Estado e a ciência só têm a ganhar com a inserção do negro nestes espaços e nós como sociedade também.